A bênção da falta de opção
Quando não há escolha, você descobre quem você é — e onde decide colocar sua atenção.
Um dia desses me perguntaram:
“Mas como você deu conta?”
Por um segundo, bem breve, eu me perguntei também:
“Como é que eu dou conta?”
A resposta saiu da minha boca com uma leve batida do ombro na orelha, sem que eu pudesse sequer pensar:
“Falta de opção!”
É simples assim. Às vezes, a falta de opção se torna uma bênção.
Essa conversa aconteceu entre eu e uma prima. Ela acabava de se tornar mãe pela segunda vez e, apesar da loucura de ter duas filhas com menos de um ano de diferença entre elas, possui uma grande rede de apoio. E me perguntava como eu dava — ou havia dado — conta de tudo, sendo mãe solo e imigrante.
Confesso que, quando ela me perguntou como eu dava conta, fiquei intrigada com a pergunta. Afinal, eu nunca havia pensado sobre isso.
A maternidade nunca foi pesada para mim. E não porque não tenha sido, de fato, cheia de desafios, algumas dores e muita abdicação dos meus sonhos e planos. Mas talvez, pela falta de opção, eu nunca me permiti parar para sentir o peso da minha realidade. Até aquele momento.
Me lembro que, quando meu filho tinha um ano e meio, nos mudamos para a Flórida. Decidi morar a 10 minutos da praia. Saímos do gelo de Massachusetts para o calor escaldante de Sarasota, no lado oeste da Flórida. E outros três roommates* mudaram com a gente.
Duas mulheres entraram em depressão nos primeiros meses da mudança. Lembro que as duas ficavam quase o dia todo no quarto, de janela fechada, e uma pouca vontade de viver habitava nelas.
Eu também senti isso. Não ter nenhum rosto conhecido para visitar, o mercado que não tem as coisas que você quer comprar, os caminhos que você ainda não conhece, não saber o que fazer depois, nem para onde ir… tudo isso pode ser, de fato, overwhelming para o nosso cérebro, que detesta gastar energia e prefere o conforto do que já é conhecido.
Porém, eu não tinha opção.
Se eu ficasse apenas um dia em casa, me rendesse ao sono da depressão — aquele que só quem já perdeu o brilho conhece —, eu não compraria fraldas no dia seguinte e não alimentaria meu filho nos dois dias seguintes.
Então, mesmo me arrastando para levantar, eu saía da cama. Eu abria a janela. Talvez eu não limpasse o quarto como quando estou bem, mas eu saía para trabalhar. Talvez com mais remela no olho e o cabelo sem pentear, mas eu saía. Havia um motivo maior do que eu mesma: a falta de opção.
Eu também não pude respeitar meu puerpério, nem o resguardo da minha cesárea. Eu precisava trabalhar para garantir o teto que meu filho teria após os 24 dias de UTI neonatal. Então, o baby blues não conseguiu correr tão rápido quanto as minhas necessidades.
E não falando apenas de maternidade — nem somente da vida de imigrante, que tantos reclamam pelas horas excessivas de trabalho ou pelas poucas oportunidades —, eu decidi que a vida não seria pesada para mim.
Aprendi com a falta de opção que não é ela que torna as coisas mais leves, mas sim onde colocamos o nosso foco diante dela: vamos sucumbir ou vamos dar o nosso melhor, mesmo que as condições sejam insuficientes e os recursos limitados?
Onde você escolhe focar a sua atenção quando está diante de um problema? Ou melhor: qual versão de si mesma você está criando diante da adversidade?
Se você escolhe reclamar, você se torna vítima — e vítima nunca vence batalhas.
Se você escolhe virar uma guerreira, talvez até vença algumas batalhas, mas a luta se torna infinita, e rapidamente você se vê drenada.
Agora, quando você escolhe ser resistência, você não precisa nem se esforçar. Você só precisa comparecer. Estar presente para si mesma e para o seu próprio dia.
A paz que tanto buscamos é um estado de espírito. É consciência. É presença. É unicidade com o fluxo da vida.
Os problemas são inesgotáveis. Quando você resolve um, outro surge em seguida. Essa é uma lei da vida — é assim que nossas virtudes e sombras são colocadas à prova.
O segredo é aprender a viver entre eles.
Ou melhor: durante eles.
Com amor
Milla Dalbem
26/04/2026
Se esse texto falou com você de alguma forma, deixa o seu like para eu saber que ele fez a diferença no seu dia. Se você já passou por algo parecido, deixe um comentário contando sua história. E se você achar que faz sentido, compartilhe com alguém, pois meu sonho é poder viver da escrita um dia no futuro próximo.
*Roommates são as pessoas que dividem casa com você, dividem o aluguel.
*Overwhelming - algo que te drena, te deixa muito cansado.
*


Depois que li o seu texto fiquei lembrando da minha trajetória e o que você escreveu faz todo sentido.
Me divorciei e minha filha tinha 4 anos e me considero uma mãe solo também. Sempre tive em minha mente que a minha filha era a minha responsabilidade ou seja eu era a única responsável pela vida dela. Responsável em fazer dela um ser humano. E devido a minha falta de opção eu nunca pensei muito, eu só ia que nem
Um trator. Hoje vejo que tudo valeu a pena quando olho para ela e vejo o lindo ser humano que ela se tornou. Perfeita, não fui, falhei muito em muitas coisas mas hoje tenho um vínculo afetivo muito forte com ela e ela já está com 30 anos.
Para mim o principal foi entender a minha responsabilidade com aquele peque ser. Sou grata por tudo e muito grata pela vida dela. ♥️