“Você é uma pessoa passive-aggressive” — é um tipo de feedback que eu já recebi em alguns relacionamentos — sejam amorosos ou entre amigas.
“Você está com raiva agora; vamos conversar depois, quando você estiver de volta ao seu centro” seria uma das minhas respostas.
Mas acontece que, depois de um certo tempo, você tem que assumir que se tudo ao seu redor está dando errado, talvez o problema seja você e não os outros. Talvez você não seja o alecrim dourado que pensou ser.
E então eu decidi estudar o que era uma pessoa com características “passive-aggressive” e tenho que admitir que muitas vezes esse foi o padrão das minhas reações.
Passivo-agressivo é um comportamento. É uma forma indireta de expressar raiva, ressentimento ou oposição quando a pessoa não consegue - ou não se sente autorizada - a fazer isso abertamente.
Apenas a definição desse comportamento ainda não encontrou ressonância em mim; eu ainda diria que não, não sou assim.
Mas sou…
Me dei conta não enquanto eu lia a definição ou a lista de exemplos de comportamentos, mas sim quando entendi o que esse comportamento sustenta: o medo de perder o vínculo.
Eu, que sou uma people pleaser em recuperação, consigo enxergar isso em mim.
E me lembrei de uma situação que aconteceu, não tão recentemente, que quero dar voz aqui nessa tela, para que ela encontre um caminho fora do meu corpo.
Certa vez, me senti traída por uma mulher.
Ela não era só uma mulher; ela era alguém que eu respeitava e que eu admirava. Alguém cuja a opniao eu levava em consideracao.
Eu aprendi muito com ela, e sei que ela também aprendeu comigo. Ela aprendeu tanto que ela decidiu fazer o mesmo que eu fazia, na mesma data, no mesmo formato e, se pudesse, o teria feito no mesmo lugar.
Eu fiquei com muita raiva, dessas que até turvam a nossa visão. Mas eu engoli. Como uma adolescente engolindo vodka barata, só para pertencer àquele grupo de amigos.
Cheguei a nomear minha insatisfação para essa pessoa, que agiu de forma fria, aumentando ainda mais a minha raiva e silenciando minhas ações.
E apesar da minha frustração, ainda mantive as portas da minha vida abertas para essa pessoa por um tempo, enquanto eu processava outros comportamentos meus que precisavam de carinho e atenção.
A maturidade me encontrou no caminho. E percebo hoje um problema da minha geração - ou talvez do meu antigo grupo social: aprendemos a aceitar erros graves com a desculpa de “estamos todos aprendendo, evoluindo e namaste para cá e haux haux para lá”.
Eu sei que eu não tenho que perdoar nínguém, pois quem o fez já morreu na cruz, inclusive pelos meus erros.
Mas precisamos melhorar enquanto a humanos, não enquanto a espíritos, porque isso já somos. Precisamos de mais humanidade, isso sim - e antes que você diga qualquer coisa - me incluo nessa!
Hoje eu entendo o que não entendi naquela semana; eu já havia perdido aquela pessoa. Não importava se eu mascarasse minha raiva ou se a expressasse de forma diferente - eu já havia perdido aquele vínculo assim como algumas outras pessoas que existiam em minha vida por causa desse vínculo em específico. They were already gone.
Nomear essa história aqui, para mim, é uma forma terapêutica de ensinar a mim mesma que eu posso sim sentir minhas raivas e frustrações. Posso sim dar nome e voz a elas e não mais me esconder atrás dos meus próprios sentimentos.
Talvez eu tenha perdido pessoas incríveis no caminho, por agir assim. Ou talvez eu tenha me perdido no caminho pelo mesmo motivo.
Só que de um tempo para cá eu renovei meu compromisso de tornar minha alma e meu ser um pouquinho melhores a cada dia. Dessa vez, não mais para caber no mundo dos outros ou em determinado grupo, mas para caber com inteireza em mim mesma.
E ao me acostumar a sentir, nomear e direcionar a minha raiva, eu posso dar destino correto a ela. Ser mais honesta comigo mesma, para que isso possa refletir nos meus comportamentos e nos relacionamentos que realmente me importam.
Nínguem disse que seria fácil, não é mesmo?
Com amor,
Milla Dalbem
A minha verdade volta a fluir. E pouco a pouco deixo que minhas emoções se tornem textos, como sempre foi.
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