Quem é você quando todas as etiquetas caem?
Uma reflexão sobre identidade, presença e a coragem de existir além dos papéis que aprendemos a carregar.
E, mais uma vez, eu tive raiva do sistema.
Mais uma vez, eu me peguei tendo que escolher quem eu seria, como uma adolescente obrigada a decidir qual curso da faculdade fazer.
Ou você é isso, ou você é aquilo.
Precisa nichar para aparecer na internet.
Precisa ser mais clara, mais direta, mais estratégica.
Ou tem que ser menos profunda, menos complexa, menos você.
Tem que ser informativa, mas não demais.
Pessoal, mas não tanto.
Espiritual, mas sem assustar.
Terapeuta, mas sem parecer terapeuta.
Autêntica, mas dentro de um formato que o algoritmo consiga entender.
E agora, com a desinteligência artificial, todos somos tudo — e ninguém parece ser mais nada.
Complexo mundo de Sofia. Ugh. 😐
Eu tentei ser muitas coisas: Tentei ser veterinária. Tentei ser acupunturista.
Tentei ser terapeuta dentro de uma caixinha que coubesse na cabeça dos outros.
Tentei ser até quem eu não era.
Me perdi na ilusão de quem as pessoas gostariam que eu fosse.
E até a ayahuasca, que veio para diluir minhas ilusões, me ajudou a criar uma nova personalidade minha. De pouquinho em pouquinho, sem eu nem perceber, vi minha vaidade se apegar a mais um título.
Mais uma identidade.
Mais uma explicação.
Mais uma forma de dizer ao mundo: “olha, eu sou alguém”.
Mas talvez eu não queira mais ser nada que não seja ser.
Talvez eu esteja cansada de tentar caber em nomes, nichos, títulos, personagens e promessas.
Talvez eu só queira existir com mais verdade.
E no único lugar em que um dia me senti de fato habitando a mim mesma, foi nas minhas palavras escritas.
Nessas que marcam o fundo da tela.
Nessas que marcam o fundo do papel.
Nessas que, antes de tentarem explicar qualquer coisa para alguém, me ajudam a voltar para mim.
Porque escrever sempre foi o meu jeito de lembrar quem eu sou quando todas as etiquetas caem.
E é nessa ideia de ser nada — e, ao mesmo tempo, um pouco de tudo — que eu venho aqui firmar o meu recomeço.
Sem personagem.
Sem guru.
Sem a obrigação de parecer pronta.
Sem a necessidade de caber em uma definição perfeita.
Apenas sendo.
O que sair.
O que fluir.
Como der.
Com verdade.
Esse é o início de uma nova fase.
Eu não sei exatamente aonde ela vai me levar, e talvez essa seja a parte mais honesta de tudo.
Mas sei que aqui dentro existe muita vida vivida.
Muitas mortes simbólicas.
Muitos recomeços.
Muitas versões deixadas pelo caminho.
Muitas perguntas que ainda não têm resposta.
E muitas experiências que talvez possam encontrar alguma coisa aí dentro de você também.
No dia 02 de julho, estarei lançando um podcast.
A primeira temporada terá 10 episódios sobre a jornada de voltar para si.
Sobre os prazeres e os dessabores desse caminho de volta para casa.
Sobre abandonar personagens.
Sobre reconhecer as etiquetas que usamos para sobreviver.
Sobre o vazio que aparece quando elas começam a cair.
Sobre a coragem de não saber exatamente quem estamos nos tornando — e, ainda assim, continuar.
Talvez esse podcast não seja sobre encontrar uma nova definição de mim.
Talvez seja justamente sobre parar de precisar de uma.
Porque quando todas as etiquetas caem, o que sobra não é ausência. O que sobra é presença.
E talvez seja ali, nesse lugar sem tanta explicação, que a gente finalmente comece a ser de verdade.
Com amor,
Milla Dalbem


