Eu era mais uma vítima
Eu tinha 22 anos quando percebi o que estava fazendo. E continuei fazendo por muito tempo depois.
Apesar de sorrir nessa foto, esse foi o dia em que eu descobri que eu era mais uma vítima.
Eu estava fazendo estágio em um dos melhores hospitais veterinários da região e tinha planos de aplicar para o internato assim que me formasse.
Eu ainda lembro do cheiro do hospital. Das paredes frias. Dos silêncios que se misturavam com a tensão dos turnos da madrugada.
Eu tinha 22 anos.
Velha demais para continuar fazendo aquilo. Nova demais para entender o peso do que estava fazendo.
O meu turno estava quase no fim. Os veterinários da manhã já chegavam para a troca de plantão.
As salas de atendimento eram codificadas por cores. Nós estávamos na sala azul — que ficava na frente do hospital, mas como a entrada principal era pela lateral, a sensação de estar ali era sempre a de estar no fundo.
Terminada a troca, a turma da noite foi liberada. Mas como eu já havia demonstrado interesse no internato, alguns residentes e contratados sempre tentavam me conhecer melhor.
E foi numa dessas que eu caí na armadilha.
Eu contei minha história de vida.
A infância, a adolescência. A parte triste, a parte pesada. Contei com todas as pausas dramáticas que ela merecia. Consegui colocar em palavras a dor de um jeito tão vivo quanto eu tinha sentido crescendo — e depois de novo, mais tarde.
E enquanto eu abria o peito, eu vi o olhar mudar.
Hoje eu sei que já tinha visto aquele olhar outras vezes.
E confesso: havia um certo prazer sigiloso naquele momento.
*
Você está esperando que essa história vá para um lugar.
Uma sala no fundo do hospital. Um homem mais velho com poder sobre a sua carreira. Uma menina de 22 anos contando sobre a própria dor. A armadilha.
Eu sei o que você está esperando, porque é o que eu também esperaria.
Não é isso.
Ninguém encostou em mim naquela sala. Ninguém me ofereceu nada, ninguém me pediu nada.
A armadilha era minha. Eu que tinha armado. Eu que estava operando ela havia anos, com uma competência que só percebi naquele dia.
*
Saio da sala. Vou para o pátio.
O ar está frio e choca com o calor que eu sinto.
Por um segundo é como se um raio caísse em cima da minha cabeça, cegasse minha visão, e trouxesse uma frase inteira, pronta, em inglês:
I played the victim my entire life.
Eu me fiz de vítima a vida inteira.
E o meu ganho era esse: com a projeção bem administrada da minha dor, eu ganhava aliados.
Sou interrompida no meio da clareza. Por coincidência, todos os estagiários do mês estavam no pátio, começando ou terminando o turno — e por que não tirar uma foto para registrar o momento?
Foto tirada. Rostos tampados.
O papel da vítima
A real é que sempre há um ganho em ser a vítima.
Se não houvesse ganho nenhum — ou um aprendizado pedindo integração — a gente não reviveria a história dos nossos traumas o tempo todo. Nem através das histórias que conta, nem através dos pensamentos que alimenta.
No meu caso, eu transformei a minha dor na minha identidade. O ganho era atenção. Eram aliados.
Os olhares de pena preenchiam os buracos de ausência que existiam nas minhas histórias.
Hoje eu sei que quando o lado emocional do cérebro de alguém está ativado, essa pessoa decide muito rápido se vai te amar ou te detestar. E quem é que vai detestar uma menininha que perdeu os pais cedo e transformou a dor em energia para ser CDF?
Ninguém.
Eu sempre saía ganhando. E de um jeito fácil — sem precisar provar valor intelectual nenhum, eu já tinha a admiração.
Parece bom.
É um atraso. E é uma prisão: eterna vítima.
E a vítima não sai do cativeiro.
O ganho é real. Esse é o problema.
Se fosse só ilusão, seria fácil largar.
Mas não é. O papel de vítima paga. Paga em atenção, em cuidado, em desculpa antecipada, em pessoas que baixam a régua antes de você tentar. Paga em não precisar provar nada.
Ninguém repete de graça um comportamento que não funciona. Nem o corpo, nem a mente. O que a gente chama de padrão quase sempre é uma estratégia que deu certo em algum momento — geralmente num momento em que não havia outra saída disponível.
Aos 8 anos, contar a minha história daquele jeito não era manipulação. Era sobrevivência. Era a única moeda que uma criança tem quando não tem estrutura, não tem adulto, não tem chão.
O problema não é ter aprendido isso.
O problema é continuar usando aos 22. Aos 30. Aos 40.
Ter sido vítima e ocupar o lugar de vítima são coisas diferentes
E essa distinção é a coisa mais importante desse texto.
Eu fui vítima. Isso é fato, é histórico, e não é negociável. Nada do que eu escreva aqui apaga o que aconteceu comigo — nem tira a gravidade do que aconteceu com você.
Mas o fato é passado. O papel é presente.
O fato aconteceu comigo.
O papel é uma coisa que eu faço.
E é só o segundo que está sob a minha responsabilidade. Não porque eu mereça carregar isso. Porque é o único ponto onde eu tenho alguma alavanca.
O preço que ninguém conta
Quando a sua dor é o seu maior ativo, você precisa da dor intacta.
Você não pode melhorar demais. Não pode se recuperar rápido demais. Porque no dia em que você estiver bem, o que sobra? Quem é você sem a história?
Foi isso que me assustou no pátio. Não foi descobrir que eu manipulava. Foi perceber que eu tinha um investimento na minha própria dor. Que uma parte de mim precisava que ela continuasse ali — disponível, contável, pronta.
E tem o outro preço, mais silencioso: relação construída em cima de pena é relação desigual. As pessoas que te amam por compaixão não te confrontam. Não te cobram. Não esperam nada de você.
Parece amor. Mas é um amor com teto.
Ninguém te diz a verdade quando acha que você é frágil demais para ouvir.
E aí?
Aí nada.
Essa é a parte em que eu preciso ser honesta: eu tive o lampejo no pátio, tirei a foto com os outros estagiários, terminei o turno, fui para casa dormir — e continuei fazendo exatamente a mesma coisa por muito tempo depois.
Eu vi. E não mudou.
Porque consciência não é transformação. Entender o mecanismo não desmonta o mecanismo. Ele está mais fundo do que a compreensão alcança — está no corpo, na respiração que muda quando alguém olha para mim daquele jeito, no alívio químico que vem junto com a atenção.
O que mudou — devagar, muito depois — não foi eu parar de contar a minha história.
Foi conseguir contar sem esperar a cara de pena no meio.
Foi conseguir ficar na sala depois. Sem precisar do prêmio.
Não sei dizer quando isso aconteceu. Não teve dia. Não teve raio.
Se eu pudesse dizer alguma coisa para aquela menina de 22 anos no pátio, não seria “para de fazer isso”.
Seria: repara no que o seu corpo faz quando alguém sente pena de você.
É ali que a história começa a mudar de lugar.
Oi meu bem, espero que esse texto e a minha história, tenha encontrado algo ai dentro de voce e te ajude com suas proprias reflexoes - e eu adoraria saber como meu texto ressoa com voce, me conta nos comentarios?
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com amor
Milla Dalbem


