O veneno que você bebe esperando que o outro morra
A raiva parece apontar para o outro, mas quase sempre revela algo que ainda dói dentro de nós.
Existe um veneno que você bebe quase todos os dias sem perceber. Ele enfraquece o coração, desliga a mente e apodrece o fígado.
Ele está na rotina de quase todas as pessoas que eu conheço. Ele diminui a produtividade e aumenta a reatividade. Destrói famílias e relacionamentos.
Você bebe desse veneno esperando que o outro seja envenenado.
Às vezes ele é pouco amargo e vem em um frasco que parece nem existir, chamado “ressentimento”. Mas, algumas vezes, ele é cortantemente amargo e sua garrafa queima como pinga — essa é a raiva.
A raiva tem muitas nuances. É como um produto de uma marca conhecida que possui várias versões do mesmo sabor: aborrecimento, irritação, frustração, exasperação, indignação, ira e fúria.
E, como toda grande marca, poucas vezes sabemos a sua composição original.
Mas, se você me permitir fazer uma fofoca, eu conto um segredo:
A raiva quase sempre protege uma dor que ainda não encontrou voz.
E, quando a gente entende isso, a gente se abre.
Enquanto você sente raiva de alguém, ou mesmo um ressentimento “leve”, é impossível haver perdão.
Pois quem sente raiva quase sempre se coloca em cima de um pedestal e aponta um dedo. Na outra ponta, às vezes existe uma pessoa que nem sequer tem ciência desse dedo apontado. Aqui não há espaço para compreensão.
A compreensão da raiva começa quando você aceita que a sua fúria ou irritabilidade escondem algo que ainda dói.
Uma tristeza.
Uma mágoa.
Uma dor.
É quase como uma cratera, pequenininha ou gigantesca, em nossa alma. Alguma necessidade que não foi atendida, algum limite que não foi respeitado, algum acordo que não foi cumprido.
A raiva nem sempre é a ferida. Muitas vezes ela é apenas a casca que protege a ferida.
Um outro fator sobre a raiva é que, enquanto estamos na fase que aponta o dedo, estamos também vivendo o papel de vítima. E ser vítima, em qualquer atrito, nos protege de assumir responsabilidades pelos acontecimentos.
Toda situação que enfrentamos tem um aprendizado escondido nela.
E, se por algum motivo estamos passando por algo desconfortável, é porque nossa alma tem algo para aprender ali, seja em um pequeno desconforto ou em algo maior, como uma doença.
A gente aprendeu a evitar algumas emoções e a desejar viver intensamente outras, mas a vida aqui na Terra é uma eterna escola. E as nossas emoções são apenas sinais: indicadores de virtudes que ainda precisamos desenvolver e de feridas que precisam de acolhimento.
E quase nunca é só sobre o outro.
Deixo aqui um convite:
— Refletir sobre a sua raiva (seja ela em qualquer nível, da irritação à fúria).
Por que ela está ali?
O que ela esconde?
O que ela quer me mostrar?
Lembre-se: a raiva é sempre sua e você está projetando-a em alguém (ou em algo).
Nós não precisamos perdoar ninguém. O único que dá o perdão já o fez.
Com amor,
Milla Dalbem
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Esse era para ser um texto sobre perdão, mas, quando pedi à Fonte inspiração, fui intuída a escrever sobre a raiva primeiro.
Talvez porque, antes de falar sobre perdão, precisamos falar sobre aquilo que torna o perdão tão difícil.
Fica de olho, porque esse texto terá uma continuação muito especial.
♥️

