O Som da Preocupação
O que aprendi ao ouvir o choro do meu filho em uma cerimônia de Ayahuasca
A maioria das pessoas que me acompanham sabe que sou praticante do xamanismo e que consagro Ayahuasca com frequência. Um dos motivos pelos quais decidi voltar a escrever é porque tenho incontáveis folhas com aprendizados que recebi durante as cerimônias.
Aprendo muito sobre as emoções — sobre como percebê-las, reconhecê-las e contornar algumas delas. Muitas mirações que vivi encontraram lugar no papel. Hoje, quero compartilhar uma lição sobre a PREOCUPAÇÃO.
A miração
Eu estava participando de uma cerimônia, sentada em meu lugar, recebendo minhas mensagens, aprendendo sobre o mundo, quando, de repente, escuto o choro de uma criança. Pior: parecia que eu ouvia o choro do meu filho.
O óbvio aconteceu — meu sistema de alerta foi imediatamente ativado. Levanto a cabeça e começo a olhar ao redor, tentando reconhecer onde estou, buscando o olhar do meu filho ou de qualquer outra criança. Não encontro ninguém. Até porque… não há crianças no local da cerimônia.
Lembrar que não havia crianças ali piora um pouco a situação. A preocupação começa a tomar forma:
“Será que meu filho está chorando?”
“Mas ele deveria estar dormindo a essa hora…”
“Será que ouvir o choro dele significa que ele está passando por alguma dor emocional ou por algo que eu não percebi?”
O que antes era apenas preocupação se intensifica. Fico inquieta. Já não consigo ficar confortável na minha posição. Não consigo mais ter nenhuma miração que não seja pensar no meu filho. A ansiedade chega tomando conta, e agora meu corpo quer se mexer, levantar, andar, ir embora dali e pegar o carro para ir encontrá-lo.
Sinto-me como uma novata querendo sair da cerimônia, mesmo sabendo que isso não é possível (risos).
Nessas horas, agradeço por já ter consagrado tantas vezes e por conhecer um pouco dos “truques” e das formas de comunicação da medicina. Respiro fundo e faço a pergunta que eu deveria ter feito desde o começo:
— O que eu tenho para aprender com essa situação? Com ouvir meu filho chorar?
E então, o aprendizado vem.
O ENSINAMENTO
Quando vem um pensamento de preocupação, você primeiro “take note and acknowledge”*. Racionaliza por um segundo se aquele é um pensamento real e se tem embasamento ou se é apenas uma distração. Se você concluir que é distração - para te ajudar a sair da cadeia de repetição de pensamentos compulsivos -, você deve imediatamente focar na respiração que o cérebro vai entender que não é algo que o cérebro precisa trazer de volta.
Repete para cada preocupação que vier.
O excesso de preocupação pesa e te paralisa.
O APRENDIZADO
E foi exatamente isso que eu fiz.
Primeiro, nomeei a emoção de forma adequada:
“Estou preocupada.”
Ao nomeá-la, reconheço a presença dela no meu sistema nervoso.
Depois, racionalizei. Perguntei a mim mesma se havia motivos reais para aquela preocupação:
“Existe algum risco real que meu filho esteja correndo?”
A resposta foi clara: não.
Eu o havia deixado em um lugar seguro, com alguém de absoluta confiança — tanto minha quanto dele. Ele estava saudável. Não havia nenhum peso ou situação acontecendo na vida dele que eu não tivesse percebido. Se houvesse, quando perguntei qual era o aprendizado, a resposta teria vindo ali.
O que minha consciência queria me ensinar era algo diferente:
aprender a perceber, regular e driblar melhor meus momentos de preocupação.
Essa foi a forma que ela encontrou para me trazer a lição.
Quando o aprendizado chegou, consegui me acalmar. Em seguida, ouvi claramente:
“Escreva.”
Mesmo ainda tomada pela força da experiência, peguei papel e caneta e registrei aquela miração. Para que hoje ela pudesse servir como lembrete para mim — de como lidar melhor com minhas preocupações — e também para que essa “lição medicinal” pudesse chegar a quem mais precisar dele.
Sou grata por aprender.
E por poder compartilhar.
Com amor,
Milla Dalbem
Notas:
Estou muito feliz de poder escrever esse texto, pois há muitos anos a Ayahuasca vem pedindo que eu escreva todos os meus aprendizados, e sempre me explica “Ayahuasca é para todos, mas nem todos são para ayahuasca” - afinal, muitos não têm acesso, ou não conseguem tirar proveito da parte psicodélica do processo. Então ela me pede para que eu escreva esses aprendizados, deixando claro que eles não são meus, porém eles podem chegar ao mundo através de mim. Embora ela me mostre que devo escrever um livro, ela também me diz que esse conteúdo tem que chegar a todos, independentemente da capacidade financeira de cada um.
Portanto, tenho um acordo espiritual de postar tudo aqui, de forma GRATUITA, ou seja, nenhum post deste tema será bloqueado para assinantes - PORÉM, a sua assinatura aqui vai me ajudar a ter os recursos necessários para continuar a serviço - por mim, por nós e pela humanidade em fase de transição.
1. Take note - significa anotar, registrar
2. Acknowledge - reconhecer.

