O Parto de Mim Mesma
Eu fui procurar respostas sobre a morte e encontrei uma nova forma de viver (relato da minha experiencia com BUFO)
Eu não tinha medo da morte. Fui aquela adolescente e mulher que vivia os dias intensamente, sem me preocupar com o amanhã. Meu lema era “carpe diem”.
Eu vivia tudo o que a vida me oferecesse, gostava de coisas radicais... Me lembro que, quando fiz bungee jump, gravei um vídeo dizendo para minha mãe que, se eu morresse, ela não ficasse triste, pois eu havia morrido feliz e fazendo algo que eu queria. Quando saltei de paraquedas, eu também só pedi a Deus que, se não fosse meu momento de morrer, que aquela experiência não tirasse a minha vida em um momento que ainda não era o meu, que algo acontecesse no caminho e eu não chegasse lá. E saltei sem medo. Apenas me entreguei à experiência, e foi uma das melhores sensações de pertencimento ao universo. Me senti tão una com o universo, me vi tão pequena e tão parte. Foi lindo.
Quando eu estava grávida de meu filho, tive uma doença que me fez ter um encontro com Jesus, e ele me perguntou se eu queria ficar lá ou se eu queria voltar. Escolhi voltar, pois eu estava grávida e queria experienciar a maternidade.
Após o nascimento do meu menino, passei a temer a morte. Mas recentemente descobri não ser a morte que eu temo, e sim meu apego a ele, durante uma consagração da medicina Bufo alvarius.
Descobri a morte sendo uma amiga, ou apenas uma mudança de estado de consciência.
Minha experiência começou antes mesmo da minha consagração... Tive medo de morrer. Perguntei milhares de vezes à Xamã se existiam chances de que eu fizesse minha passagem, e ela me disse que não, mas não acreditei nela. Não por falta de confiança no seu trabalho, mas porque algo me dizia que eu morreria.
E eu morri. Não é a mesma pessoa que hoje escreve essas palavras.
Após consagrar a medicina, em poucos segundos, entre engolir a fumaça e fechar os olhos, lá estava eu. Desmanchando. Derretendo. O véu que eu usava era a única coisa que não derretia, mas meu rosto e corpo, sim. Mantive-me sentada, na ilusão de não perder o controle do meu corpo, ou quem sabe da mente.
Me vi como sou. Não um corpo, não matéria, mas energia, que se misturava com a música, com os sons, com a real vida.
Lembro que tocava a Oração de São Francisco. Me apeguei a ela, e ela se tornou uma comigo. “Amar, que ser amado, perdoar para ser perdoada.”
Voltei e abri meus olhos, e a Xamã estava me esperando para mais uma “dose”. Não quis, pois aquela sensação já estava mais do que válida em minha cabeça. Eu já tinha recebido o que eu tinha ido buscar. Mas ela me disse que eu tinha apenas aberto a porta, mas que eu não havia entrado ainda.
Confiei, querendo desconfiar, e aceitei me entregar e atravessar aquela porta.
E daí, morri.
Tocava “É morrendo que se vive para a vida eterna”, e decidi conhecer a vida eterna.
Conheci então a morte. Deitei. E me vi, então, de fato, quem posso ser sem a presença do meu corpo. Jesus mais uma vez veio ao meu encontro, e ele me explicou que a ressurreição é sobre isso: deixar um estado de consciência morrer para existir em outro estado. Eu o vi na cruz, sem medo e totalmente entregue. Confiante no universo. Sem medo e sem dor. E ele me explicou: o que vamos temer, se o pior que pode acontecer a um ser humano é a morte? E que a morte, na verdade, não é algo ruim, pois retornamos ao que verdadeiramente somos. Energia. Paz. Amor.
Tive que entregar meu corpo. Eu não queria e ele me explicou que, na verdade, o que eu estava sentindo era apenas apego. Apego ao corpo, apego à vida. Sim, temos tanto apego à vida que deixamos de viver, muitas vezes por medo.
Não é uma incongruência?
Queremos viver e não queremos morrer, pois somos apegados à vida. Mas deixamos de viver por medo de morrer. Será que isso realmente faz sentido?
Depois de entregar meu corpo, de senti-lo se desfazendo, derretendo e não existindo mais... senti meu corpo sendo reconstruído. Eu estava dentro da água. Nada tinha lugar. A minha boca estava onde os olhos deveriam estar, não tinha orelhas e nem sentia o restante do meu corpo.
“Não se preocupe com as coisas fora do lugar. Antes de tudo se ajeitar, pequenas coisas se formam mesmo fora do lugar, até que tudo ganhe sua forma”, dizia o próprio Criador em uma reformulação do meu corpo, que estava em um ventre. Eu era o feto, mas também era a mulher grávida em uma banheira pronta para parir. Eu também era a parteira, que acalmava aquele bebê e aquela mãe. Eu era todas elas.
“Você é todas elas, pois não existe separação. Essa separação é criação do corpo”, me dizia o Criador. É como a água. A água é água em forma de chuva, de lago, de rio ou a água no nosso copo. É apenas água. Não existe separação. É eterna. Pode chover e ter água em um lugar diferente. Mas é tudo água. Somos apenas um. Somos água. Somos música, somos energía. Somos um pedaço do Criador. Apenas somos. Em diferentes formas.
O que o bebê no ventre sentia era o mesmo que a mãe sentia, era o mesmo que a parteira sentia.
Se somos todos um, por que competimos? Por que nos distanciamos? ¿Por que nos separamos?
Eu só vou de fato crescer e ser algo diferente se todos nós formos ser diferentes e crescer. Talvez uma fagulha minha mude, mas ela puxa todas as minhas outras fagulhas para o mesmo lugar. A unicidade.
Perdão se torna algo tão irrisório. Eu sou o outro, o outro sou eu. Então o perdão começa comigo. Perdoei meu corpo, que não teve o parto que eu planejei. Perdoei meus seios, que não puderam amamentar. Perdoei meu filho, por toda a mudança que ele trouxe para minha vida. Eu nunca nem pensei que eu precisasse perdoá-lo.
Abri meus olhos e eu não havia morrido. Eu havia renascido.
Tirei de meu ventre tudo aquilo que armazenei ali e que me adoecia. Senti uma equipe de médicos me limpando. Entendi que o parto que eu estava vivenciando era o meu próprio parto.
A gente morre, mas a gente renasce. Em outro estado de consciência. E isso é a ressurreição. Somos infinitos e somos finitos, na mesma intensidade e da mesma forma.
Fica mais fácil amar, pois nos tornamos amor quando entendemos que somos um com o todo.
A separação, de corpos, de locais, de idiomas, de ideias... ela é só uma ilusão. Uma cadeia da mente.
... mas há libertação.
Texto escrito em 29 de abril de 2024.
Com amor
Milla Dalbem


