- Mãe, aquele homem é pobre?
- Por que você acha isso, filho?
- Porque ele está sentado ali na rua.
Eu estava fazendo uma caminhada de 40 minutos com meu filho até a biblioteca, e, no caminho, passamos por um posto de gasolina. Havia um homem que trabalhava no posto, sentado em uma cadeira, lá dentro.
O frio aqui onde moro já chegou, então o rapaz usava um casaco mais grosso que estava sujo — afinal, ele trabalha em um posto de gasolina — e tomava um café do Dunkin. Sei que ele fuma também, pois o vimos fumando na volta.
- Não sei se ele é um homem pobre. Sei que ele é um homem que está trabalhando.
Havia percebido algo naquela pergunta que me incomodou, e não poderia perder a oportunidade de conversar sobre o assunto.
- Ben, a nossa maior busca na vida não deveria ser o dinheiro. Se ele é um homem pobre ou rico, isso só fala sobre a quantidade de dinheiro que ele tem no banco ou à sua disposição, mas não sobre que tipo de ser humano ele é. Filho, você alguma vez ja se perguntou por que existimos?
Peguei no bracinho fino dele, enquanto ele caminhava sobre um muro de pedras, o que fazia com que seus olhos ficassem na mesma altura dos meus.
Ele deu de ombros, e fez uma cara de quem nunca havia sequer pensado nisso antes.
- Deus nos deu a oportunidade de vir aqui à Terra para aprendermos a ser seres melhores. Existem pessoas que têm muito dinheiro no bolso, mas são “bad guys”, assim como existem pessoas sem dinheiro nenhum que têm um “good heart”. Também existem pessoas boas com dinheiro e pessoas que não têm dinheiro nem caráter. No final das contas, ter ou não ter dinheiro é só uma questão de conforto e liberdade. Mas aquilo que importa é o que temos no nosso coração.
Chegamos à biblioteca, pegamos alguns livros — inclusive pude realizar um sonho ao encontrar uma super edição de Harry Potter e a Pedra Filosofal — e saí de lá com o pensamento de como é maravilhoso ter a oportunidade de ver o mundo acontecendo mais uma vez através dos olhos dele. Como é incrível poder me educar e recriar meus próprios conceitos enquanto materno.
O momento que eu mais esperei da maternidade foi a chegada dessas conversas. Além dos hinos do reggae, eu não tive ninguém que me ensinasse sobre o mundo. Ou foi a rua, ou foi o Ponto de Equilíbrio e tantos outros artistas do reggae que forjaram minha consciência, então sim, eu esperei demais por esse momento.
E apesar de ter esperado tanto por isso, me pego muitas vezes de cabelo em pé sem saber o que fazer ou o que falar. Mas acredito que não estou sozinha nessa, né?
O caminho de volta foi de bastante reflexão para mim, estamos em pleno outono e as paisagens, por mais simples que sejam, massageiam meus olhos e fazem meu cérebro derreter. Peguei-me pensando na diferença absurda entre a vida do meu filho aqui e a vida que eu tive no Brasil.
Talvez seja a saudade falando, mas, no Brasil em que cresci, aprendi a reconhecer o valor das pessoas muito mais pela maneira como elas nos tratavam do que por aquilo que possuíam.
Senti certa saudade de casa e do meu povo. Senti alegria por ter crescido lá. E eu que tanto desejei a oportunidade de criar um filho fora do Brasil, sinto na pele o peso dessa diferença.
Peço que Deus me conceda a sabedoria para guiá-lo.
E principalmente, coragem para viver de acordo com aquilo que ensino.
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