O mais perigoso do piloto automático é que ele parece funcional
Uma mulher pode continuar funcionando por anos sem perceber que já não consegue mais se sentir dentro da própria vida.
Um dia ela acordou.
Não como todos os dias.
Parecia não ter vontade de falar.
Se sentia mais cansada que o normal.
Seu companheiro acordou também e, como fazia todas as manhãs, a abraçou.
E por mais que ela tenha abraçado de volta, ela não estava presente naquele abraço.
E ele sentiu.
“Mal acordei… o que será que fiz de errado dessa vez?”
E como nós ouvimos também aquilo que não é dito, ela se defendeu:
— “Não acordei bem hoje.”
A verdade é que ela não estava bem.
E não era de hoje.
No café da manhã, a desconexão da manhã virou atrito.
Não que existisse, de fato, algo grave acontecendo.
Mas o elefante branco ocupava quase toda a cozinha.
As coisas fora do lugar começaram a gerar uma agonia silenciosa nela.
Os suspiros de frustração enquanto preparava os ovos.
O olhar baixo.
A irritação escondida na forma como fechava as gavetas.
E ele, percebendo aquela mudança de energia sem entender exatamente o motivo, entrou em estado de alerta.
Não havia nada necessariamente errado na relação.
Mas parecia haver.
Ela, por não conseguir nomear o que estava sentindo.
Ele, por achar que precisava se defender de algo que nem tinha feito.
E assim começaram o dia.
O dia se arrastou.
Ela se sentia como se os dementadores de Azkaban tivessem puxado sua alma para fora do corpo.
E ele overthinking, tentando entender o que estava acontecendo.
Enquanto trabalhava, ela não pensava em nada.
Apesar de sentir que sua alma não estava ali, cumpria todos os prazos.
Era cordial com os colegas.
Estava bem vestida.
Respondia e-mails.
Participava das reuniões.
E às vezes até esquecia que havia algo estranho dentro dela.
Mas contava os minutos para o dia acabar.
Para chegar em casa, tomar banho e assistir alguma coisa.
Porque pelo menos diante da nova temporada da sua série favorita, ela não precisava encarar o vazio silencioso que vinha ocupando o peito há meses.
Mas que vazio era esse?
Ela chega em casa.
E a realidade não é aquela fantasia de descanso que sua mente criou durante o expediente.
Ainda existe roupa para lavar.
Comida para fazer.
Conta de luz para pagar.
Mensagens para responder.
A rotina inteira esperando por ela.
São tantas coisas para fazer que ela decide sentar “só 10 minutinhos” no sofá antes de começar.
E quando percebe, uma hora e meia se passou olhando o Instagram.
A roupa vai ficar para amanhã.
Ou talvez para a próxima semana mesmo.
Ficou tarde demais.
Ela está cansada demais.
Então prefere pedir comida ao invés de cozinhar.
Nos últimos meses, ganhou peso.
Mas acredita que talvez seja a tireoide.
Ou a idade.
Ou os hormônios.
“Talvez seja normal…”
E talvez seja exatamente isso que mais assusta.
Porque aos poucos ela foi aprendendo a normalizar o próprio desaparecimento.
Às vezes pensa:
“Onde foi que eu me perdi?”
Mas para quem nunca aprendeu a nomear emoções, o piloto automático entra em ação rapidamente.
Afinal, não saber também é uma forma de proteção.
Ou pelo menos parece ser.
—
Essa é a história de uma paciente.
Mas também já foi a minha.
E talvez, em algum nível, seja a sua também.
Porque às vezes a gente não está triste o suficiente para pedir ajuda.
Só cansada o suficiente para desaparecer de si mesma aos poucos.
E o mais perigoso do piloto automático é que ele parece funcional.
Você continua trabalhando.
Continua respondendo mensagens.
Continua pagando boletos.
Continua existindo.
Mas já não consegue mais se sentir dentro da própria vida.
Eu precisei aprender sozinha a entender o que meu corpo estava tentando me dizer antes que o vazio virasse identidade.
E talvez esse seja o problema de muitas mulheres adultas:
elas só percebem que desapareceram de si mesmas quando já não conseguem mais sentir prazer na própria rotina.
Por isso, se você se reconheceu em alguma parte dessa narrativa, eu gostaria de te presentear com 30 minutos de uma conversa particular comigo.
Sem pressão.
Sem performance.
Sem precisar sustentar a imagem de quem está dando conta de tudo.
Só um espaço seguro para talvez começar a entender:
onde foi que você se deixou para trás.
—
Se esse texto encontrou uma parte sua que anda silenciosamente cansada, você pode se inscrever no Substack para acompanhar os próximos textos dessa série.
Talvez seja hora de voltar para si mesma antes de desaparecer de vez da própria vida.


Milla, isso tudo que você escreveu retrata muitas realidades, principalmente aqui na América, eu li e parecia que estava falando de mim, com um detalhe kkkk Hoje depois muitas terapias, eu já consigo olhar para mim e identificar coisa que eu gosto de fazer. Um processo.
Ressoou profundamente aqui