Me despeço desse mundo e dessa roupagem
Uma carta sobre espiritualidade, matéria, ego, presença e o fim de uma versão de mim.
Muitas cartas de encerramento começam explicando um “porquê” doloroso. E acho que uma das lições que mais se fizeram presentes nos últimos anos foi a importância do encerramento de ciclos.
E aqui, através dessa carta, venho trazendo um encerramento.
Não foi a dor o que me trouxe até aqui. Houve um bocado de decepção, e isso eu não nego, mas também houve desafios que eu jamais imaginei que sobreviveria.
Conheci bem de perto o meu maior inimigo, que também é o meu maior veículo de compreensão: a minha mente. Ah, como ela me pregou peças, ao mesmo tempo em que me permitiu enxergar que o mundo não é somente aquilo que vivemos na matéria.
E talvez esse seja o motivo do fim: minha fixação em compreender a mente. Seja a minha, a de quem me rodeia, ou a de quem chegou e chega até mim.
Vejo que esses últimos anos foram importantes para que eu enxergasse de perto os meus julgamentos, e para que eu fizesse as pazes com esse lado sombra que habita em mim. Deixei muitos julgamentos para trás — obviamente depois de ser engolida pelas consequências deles, rs.
E nessa loucura de compreender a minha mente, a mente dos religiosos e a mente dos ateus — através das mais de 700 pessoas que cruzaram o meu caminho com a Ayahuasca — eu compreendi algo que poucos livros escreveram:
A vida espiritual não importa.
Calma, não se avexe. Me deixe concluir meu raciocínio. E antes mesmo que você queira opinar sobre os meus pontos de vista, eu te convido a ouvir — ou, no caso, ler — esse texto até o final.
A VIDA ESPIRITUAL NÃO IMPORTA — do crente ao ateu.
Eu enxerguei uma semelhança entre todos eles, que é também uma diferença: não importa no que as pessoas acreditam sobre religiosidade ou espiritualidade. A vida de quem pratica o bem e trabalha fortemente para ser eticamente melhor tem mais sentido e mais propósito.
Alguns não faziam isso por temor a Deus, pois sequer acreditavam em um. E existem muitas pessoas que carregam o nome de Deus na internet ou na igreja, mas possuem um coração incapaz de perdoar alguém que as feriu, fazendo com que suas vidas se tornem quase miseráveis.
A VIDA ESPIRITUAL NÃO IMPORTA — se você não cuidar da matéria.
Do corpo.
Do dinheiro.
Da casa.
Da família.
Olha, eu mesma estive lá.
Eu via meu mentor espiritual. Canalizava mensagens lindas para o coração de alguém que havia perdido a mãe. Tive acesso à compreensão de grandes mistérios e leis universais quase visceralmente.
Mas estava deixando a educação e o tempo de qualidade com meu filho de lado.
Trabalhava cada vez menos horas “na matrix”, e a consequência foi que minha condição financeira só piorava. Então eu voltava lá, gastava mais dinheiro e mais tempo, pedindo uma solução mirabolante.
No fundo da minha cabeça, eu sempre escuto uma frase de uma oração que gosto muito:
“Deus é Prosperidade, pois Ele faz tudo crescer e prosperar. Deus se expressa na prosperidade de tudo o que aqui é empreendido em Seu nome.”
Então quer dizer que Ele também está presente na matéria.
A VIDA ESPIRITUAL NÃO IMPORTA — se você está vendo energia, curando o planeta, canalizando Shiva, mas se torna mais arrogante a cada troca que tem com outro ser humano.
Eu também estive lá.
Cheguei a dizer um dia:
“Essas pessoas não têm o mesmo entendimento que eu tenho.”
Não importa o que você faz na sua religião, qual o seu grau de sacerdote ou quão bom profeta você é, se, diante da dor ou da ignorância do próximo, você veste uma coroa de ilusões.
Já dizia um grande amigo meu:
“Na fila do céu vai ter mais prostituta do que muito religioso.”
A VIDA ESPIRITUAL NÃO IMPORTA — se você não tem domínio sobre a própria mente.
Porque a sua experiência será, sim, moldada por aquilo que existe dentro do seu cérebro e do seu coração.
A forma como você ora por alguém.
A forma como você incorpora.
A forma como a força chega.
A mensagem que você canaliza.
Se você não estiver em perfeita harmonia e transe com a consciência do Pai, inevitavelmente colocará os seus próprios filtros naquilo que sai da sua boca.
A VIDA ESPIRITUAL NÃO IMPORTA — se você não estiver presente na matéria, no aqui e agora.
Não importa se você não valoriza a oportunidade que é viver e habitar um templo que é o corpo, a casa e a família.
Se você não vigiar a sua mente, se não observar o seu entorno material — que é apenas uma expressão de quem você é no interior e no plano espiritual — nada importa: nem o tempo que você dedica à sua igreja, nem quantas sessões de Ayahuasca você teve na sua jornada.
E foi após entender que nada disso importava que eu decidi voltar alguns passos. Me dedicar ao simples, ao pequeno, ao não tão esplêndido e performático universo espiritual.
Porque eu entendi, finalmente, que eu já sou a própria espiritualidade.
Agora, o que eu realmente preciso é dominar o que existe aqui: na pequenez e na aparente insignificância da matéria.
EU SOU A ESPIRITUALIDADE.
Porque quando eu respondo à pergunta “quem sou eu?”, minha resposta é sempre a mesma:
Um espírito aprendendo a viver. Aprendendo a se melhorar.
Muitas vezes pratiquei muito mais espiritualidade nos momentos em que ninguém estava vendo:
quando não peguei um dinheiro que não era meu,
quando não passei a perna em alguém,
quando me arrependi sinceramente das coisas erradas que fiz,
quando perdoei quem causou dores inimagináveis em mim.
Difícil mesmo é ser bom quando ninguém está vendo.
Difícil mesmo é sustentar a própria existência.
Difícil — e profundamente espiritual — é sustentar a própria vida, as próprias decisões e exercitar a autorresponsabilidade.
E é isso que estou vivendo hoje.
Posso afirmar que, pela primeira vez em 34 anos, encontrei paz.
Na minha rotina.
No meu corpo.
No meu lar.
Nos meus relacionamentos.
E é sobre isso que vou escrever e falar daqui para frente.
Sempre vou honrar esse “mundo” que vivi, essa roupagem que vesti — porque tudo isso me trouxe até aqui, até este momento.
E espero, no caminho, poder inspirar através do exemplo.
COMUNICADO
Não estou mais na liderança da igreja Caminho das Rosas, tampouco me disponho como facilitadora.
Foi um dos períodos mais lindos e de maior aprendizado que vivi em toda a minha vida.
Sou grata a CADA uma das pessoas que cruzaram o meu caminho nesses últimos 7 anos, e a todas as experiências e relações vividas.
Se esse texto tocou você de alguma forma, compartilhe — e se inscreva no meu Substack para acompanhar os próximos capítulos dessa nova fase.

