Heroi sem capa, mas de farda.
22 anos comemorando seu aniversario no astral.
Ele tinha 44 anos e uma vida cheia de sonhos.
Na verdade ele tinha 43 anos e nunca chegou a comemorar seus 44, pois faltando 5 dias para seu aniversário, ele completou seu contrato com Deus.
Hoje me dei conta de que ninguém nunca escreveu a história desse super-herói sem capa, talvez a realidade da farda e do terno não tenha tanta importância como a ficção que passa na tv.
Ele era um homem de uma única palavra.
E em 34 anos de minha vida, eu encontrei poucos como ele. Inclusive ele era tão único que algumas vezes dentro de mim, não o compreendi - especialmente minha inner teenager que detestava abaixar a cabeça para seus comandos.
Eu não sei muito sobre sua história antes de ser pai - e hoje sendo mãe, compreendo que somos uma pessoa antes e outra completamente diferente após tornarmos responsáveis por outra criação além da nossa - mas do pouco que sei, sei que foi muito pobre.
Lembro de histórias sobre como sua família, muitas vezes, tinha apenas uma cebola e uma salsinha para dividir entre 6 pessoas, e como isso moldou-o a ter como foco número um não deixar faltar alimento em casa.
Ele era até parecido com o “pai do Chris”, pois tinha 2 empregos fixos e fazia muitos outros freelancers. O que diminuía, muito, a sua presença.
A sua ausência era sentida pela garotinha que fui. Mas a mulher que me tornei foi fruto de todas as lições morais que ele deixou, nos curtos 12 anos que pude desfrutar de sua presença em minha vida. Hoje entendo, depois de muita terapia, que a vida tem um sabor “bitter-sweet” e reconheço seus esforços para abrir o caminho para que minha vida (e a de meus irmãos) fosse possível.
Vendo o mundo atual, sinto falta de sua presença, pois sei que existiam dentro daquele homem muitos valores que estão sendo perdidos pela nossa geração. A força, a estrutura, a coragem e a dignidade de um masculino que sabia cuidar de sua casa como um leão.
A voz desse homem era ouvida, sem nunca precisar gritar. Ele falava inclusive com os olhos, que me educaram muito mais do que os gritos do mundo. Ele inspirava. Era um homem forte, espiritualidade mais forte ainda. Mas como muitos homens, não sabia se livrar das dores da alma, o que acredito que foi a maior responsável pelo adoecimento do seu corpo físico.
Eu também pude presenciar o que é a adoração mútua em um relacionamento - apesar de algumas brigas, eu via o tanto que meu pai e minha mãe não biológica se adoravam, o tanto de devocão havia entre eles.
Outra lição que pude aprender com esse herói sem capa: é que não podemos deixar os nossos sonhos para amanhã, talvez o amanhã nunca chegue.
Feliz aniversario.
E gratidão à vida por 22 anos depois, poder me ajudar a compreender o que um dia tanto julguei.
E um conselho a mim mesma: Às vezes a dor (a tristeza, a raiva, etc.) nos impede de ver o lado bom do outro, ou das histórias.
TUDO É PARTE DO TODO.


