Eu me despi de tudo — e voltei para onde sempre soube que devia estar
Carta de abertura · Milla Dalbem
Aos 34 anos, pela primeira vez na minha vida, eu tenho paz.
Não a paz que aparece depois de uma sessão de meditação ou de um fim de semana de retiro. Não a paz que dura enquanto o ambiente está calmo.
A paz da rotina. Do corpo. Do lar. Das decisões.
E cheguei até aqui de um jeito que ninguém me contou que era possível: voltando.
Voltando para mim. Para o trabalho que já era meu há mais de dez anos. Para o que eu sempre soube fazer — antes de me perder na busca por algo maior.
Construí a minha vida do zero — sem rede de segurança, sem ninguém para segurar a ponta por mim.
Fui mãe solo por anos. Aprendi a não esperar ser salva. Aprendi a escolher — e a pagar o preço das escolhas que eu fiz. Aprendi, na carne, o que é se recusar a viver de migalhas — em relacionamentos, em dinheiro, em sonhos.
E quando finalmente encontrei um amor de verdade, entendi a diferença entre quem chega inteira para uma relação e quem chega precisando ser completada.
Tudo isso me fez terapeuta antes mesmo de eu me chamar assim.
Por mais de dez anos, fiz esse trabalho. Acompanhei mulheres em processos de mudança real — não só de compreensão, mas de vida.
Até que me perdi.
Não de uma vez. Foi gradual — como toda perda que acontece quando a gente está ocupada demais olhando para outro lugar.
Me dediquei profundamente à espiritualidade. Liderei uma igreja. Passei por mais de 700 pessoas em sessões com Ayahuasca. Canalizei, compreendi, expandi.
E enquanto isso, fui deixando meu filho, minha estabilidade e o meu próprio trabalho de lado. Trabalhava cada vez menos horas. Via minha condição financeira piorar. E voltava para o mesmo lugar pedindo uma solução que nunca chegava da forma que eu esperava.
Aprendi da forma mais concreta possível:
Consciência sem ação não muda nada.
Não importa quantas sessões, quantos insights, quanta expansão — se isso não vira vida, decisão e movimento, não é transformação. É fuga com roupagem bonita.
Então eu parei.
Me dediquei ao simples. Ao pequeno. Ao que estava aqui — no corpo, na rotina, nos relacionamentos, nas escolhas do dia a dia.
Não porque abandonei o que acredito. Mas porque entendi que eu já sou a própria espiritualidade — e o que eu precisava era aprender a viver aqui, na matéria, com presença e direção.
E voltei para o meu trabalho.
Com dez anos a mais de vida vivida. Com a história de quem saiu do país sem rede, criou filho sozinha, foi engolida pelas próprias ilusões e saiu de lá de pé. Com a firmeza de quem sabe exatamente o que é chegar no limite — porque já esteve lá.
É sobre isso que vou escrever aqui.
Não vou te vender processos infinitos de autoconhecimento. Não vou romantizar a dor. Não vou criar dependência de mim.
Vou falar de consciência que vira vida. De regulação emocional que funciona na segunda-feira de manhã, não só no retiro. De relacionamentos, de decisões, de como sair do modo sobrevivência e construir algo que faz sentido de verdade.
Com o colo de quem sabe o que é não ter para quem correr.
E com a clareza de quem aprendeu, na prática, que sustentar a própria vida é o ato mais espiritual que existe.
Se você chegou até aqui, provavelmente reconhece algo nessas palavras.
Bem-vinda.
— Milla Dalbem


Muito bom ler o seu texto, Milla.
Hoje vi fez um pergunta sobre descrever em uma palavra como você estava e eu respondi: ansiosa
Das coisas que me geram ansiedade é o fato de querer investir mais em mim e não ter tempo e depois cheguei em casa e fui tomar um banho e pensei sobre isso, onde estou aplicando na minha vida prática os ensinamentos que as medicinas da florestas tem me trazido ?
E depois de cuidar do meu corpo físico com óleos essenciais de lavanda eu sentei e escrevi os meus desejos pessoais e fiquei chocada 😮 com o tantas coisas que desejo fazer. Tenho consciência que não consigo fazer tudo aos mesmo tempo mas o fato de entender que hoje eu não sou mais só Deveres e Obrigações já me deixou feliz. Estou conseguindo olhar 👀 para dentro, olhar para mim.
E outra coisa que eu percebo também é que hoje eu tenho mais presença naquilo que estou fazendo.
Gratidão,Milla