Eu já tive muito medo das minhas emoções
Sobre a diferença entre o que passa e o que fica — e por que deixar sentir não é o mesmo que se perder no que sente.
Afinal de contas, a história da minha vida começa com uma menininha aprendendo sobre o luto enquanto ela se dá conta de que nasceu.
Sem a segurança do útero. Sem a segurança do colo de uma mãe.
Minha mãe biológica morreu enquanto eu ainda era um bebê. Não sei exatamente com quantos meses — mas sei que foi cedo o suficiente para eu não ter memória nenhuma do cheiro ou do calor do seu colo.
Graças a Deus, meu pai casou de novo, e eu pude ter pelo menos uma referência de família. Mas quando entro na adolescência, perco também o meu pai.
E se você acha que a vida de um adolescente já é difícil o suficiente, imagina a de uma que carrega a ausência da mãe e a perda do pai. São muitas emoções para uma criança de doze anos.
Emoções demais. Colo de menos.
Então eu fiz o que qualquer criança faria para sobreviver: aprendi a ter medo do que eu sentia.
Porque sentir, para mim, era perigoso. Sentir era abrir uma porta sem saber se eu conseguiria fechar de novo. A tristeza parecia um lugar de onde ninguém volta. A raiva parecia uma prova de que eu era ingrata. A saudade — de alguém que eu nem cheguei a conhecer — parecia não ter o direito de existir.
Então eu segurava. Engolia. Adiava.
E o que ninguém me contou é que emoção adiada não vai embora. Ela muda de endereço.
Vira tensão no corpo. Vira ansiedade sem nome. Vira aquele cansaço que o sono não resolve. Vira uma vida inteira funcionando no modo “está tudo bem” enquanto por dentro alguma coisa pede, baixinho, para ser sentida.
Demorei anos para entender uma coisa simples — simples de dizer, difícil de viver:
Emoções são passageiras. Sentimentos são emoções que a gente não deixou passar.
A emoção é uma resposta automática do corpo. Ela chega como onda: sobe, atinge o pico, desce. Se a gente permite, ela atravessa e vai embora — porque foi feita para isso. É passagem, não moradia.
O sentimento é outra coisa. É a consciência de uma emoção que ficou. Uma emoção prolongada, revisitada, alimentada — que se transforma em estado. E aí a tristeza de um dia vira o tom da vida inteira. O medo de um momento vira o filtro pelo qual a gente enxerga tudo.
Eu passei anos morando dentro de emoções que só queriam passar por mim.
O que mudou não foi eu ter “superado” nada. O que mudou foi eu aprender a fazer duas coisas que parecem opostas — e que na verdade se completam:
Deixar passar. E saber a hora de agir.
Deixar passar não é ignorar. Não é respirar fundo e fingir que não doeu. É o contrário: é sentir de verdade, com o corpo presente, sem correr para consertar. É deixar a onda ser onda — sabendo que ela desce.
E saber a hora de agir é entender que nem tudo é para ser apenas sentido. Algumas emoções são mensageiras: elas apontam para algo que precisa mudar. Uma raiva que volta sempre no mesmo lugar. Uma tristeza que mora numa relação específica. Aí não basta deixar passar — é preciso escutar o que ela veio dizer e fazer alguma coisa com isso.
E existe ainda uma terceira coisa, que talvez seja a mais difícil de todas:
Respeitar os lutos. Respeitar os momentos de sentir.
Porque tem dor que não é para ser resolvida rápido. Tem luto que precisa do seu próprio tempo — e apressar esse tempo não é força, é abandono. A menininha da minha história não precisava de alguém dizendo “vai passar”. Ela precisava de alguém que sentasse do lado dela enquanto não passava.
Hoje eu sei fazer isso por mim.
Não porque eu deixei de sentir medo — mas porque o medo deixou de mandar. Eu aprendi que nenhuma emoção minha é grande demais para o meu corpo. Que eu posso ser, ao mesmo tempo, a onda e a praia.
Se você também aprendeu cedo a ter medo do que sente, eu quero te dizer o que eu levei anos para descobrir:
Você não precisa ter medo do que é passageiro.
E o que não é passageiro — o que ficou, o que virou sentimento, o que virou casa — também não precisa ser para sempre. Só precisa, primeiro, de permissão para ser sentido.
A porta que você tem medo de abrir? Ela também sabe fechar.
Com carinho,
Milla Dalbem
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