Descansa que eu cuido
Em sete anos sendo mãe, eu nunca tinha ouvido essa frase
Eram quatro da manhã. Ainda faltava uma hora para o despertador tocar e eu estava no meio de um sonho interessante quando acordei com meu filho ao lado da cama, chorando.
Ele estava com dor.
Antes da maternidade, eu tinha uma aversão tão grande a ser acordada que passava o dia quase inteiro de mau humor. Isso mudou. Teve que mudar.
Hoje, acordar com meu filho no pé da cama é uma mistura de preocupação, cansaço e uma pitada de ternura — não mais de raiva. Acho que me acostumei a vestir a pantufa de zumbi e simplesmente levantar.
Essa madrugada, especialmente, eu estava exausta. Minha rotina de trabalho está dobrada e meu sono está pela metade.
Era dor de barriga. Meu filho não é fraco para dor, então pelas lágrimas e pelo corpo dele eu sabia: não estava aumentando nem mentindo.
Levantei. Mediquei.
Meu marido acorda. Chama meu filho para a cama com a gente. E anuncia:
“Pode dormir, amor. Eu cuido dele. Você vai levantar em menos de uma hora. Descansa.”
Eu nunca tinha ouvido essa frase na minha vida. No momento, não dei importância.
Eles se abraçaram e eu virei para o lado.
Meu corpo relaxou. Minha mente não desligou. Escutei tudo o que veio depois: os dois saindo para caminhar lá fora, voltando, conversando baixo, decidindo que a dor tinha diminuído.
Percebi que não ia conseguir dormir. Mas eu tinha descansado — e não foi só o corpo.
Me arrumei para sair e avisei meu chefe que talvez não fosse.
Meu marido me deu um beijo no rosto:
— Pode ir trabalhar. Eu olho ele. Te aviso se precisar e levo ao médico se for o caso.
No caminho, chega a mensagem dele: está bem, foi ao banheiro, agora está dormindo.
Abri o Instagram e descobri que era Dia dos Pais. Eu nem tinha lembrado.
Escorreu uma lágrima.
Quem ganhou o presente naquela manhã fui eu.
Em sete anos sendo mãe, eu nunca tinha ouvido a frase “descansa que eu cuido”. Não só pela ausência de quem não soube ser pai, mas porque madrugada adentro, quando a febre ou o pesadelo visitam, a minha rede de apoio sempre foi Deus — nossa família mora a mais de três mil quilômetros daqui.
Chorei outras vezes ao longo do dia.
Talvez meu marido nunca saiba o tanto que ele nos curou naquela madrugada. Que sua presença preencheu buracos que a gente nem sabia que existiam.
E em sete anos, essa foi a primeira vez que o Dia dos Pais não foi meu.
Serei eternamente grata ao meu marido por nos escolher.
Feliz Dia dos Pais para quem aceitou ou escolheu ser pai.


