Adeus à Promíscua: quando a persona que te protege também te impede de amar
Durante anos, a promiscuidade me protegeu da rejeição, da vulnerabilidade e do amor. Este é um relato sobre luto, autoconhecimento e a difícil despedida de uma versão de mim mesma.
Me despedir dela foi muito mais doloroso do que sequer um dia imaginei que seria. Logo ela, que TANTO me protegeu.
Eu a conheci ainda na infância. Talvez no começo da adolescência, uma fase tão vulnerável na vida de uma mulher, digo, menina. São tantas as preocupações nessa época: primeira menstruação, namorados, falta de compreensão e vontade de descobrir o que é o sexo. Ela esteve lá, me protegendo dos maiores perigos que eu pudesse enfrentar.
Eu nunca imaginei que ela me deixaria. Não entendia nem que havia algo errado com nossa relação. Não havia mais distinção entre onde era eu e onde era ela. Onde eu começava? Onde ela agia?
A dor de vê-la partir trouxe muitas lágrimas aos meus olhos, e fazia tanto tempo que eu não chorava. Fazia tanto tempo que eu “não sentia”.
Nossa relação era tão intensa que eu havia perdido a minha individualidade, e ela a dela, a ponto de eu nem mais saber nomeá-la. E, ao contar da minha dor do luto a uma amiga, ela foi quem conseguiu dizer o nome de quem partia:
“A promíscua”.
Doeu, pois com sua partida ela me mostrou o tanto que me protegeu de um dos meus maiores medos: o estupro. Eu sempre disse que eu nunca seria estuprada, pois, afinal, eu mesma, que amo tanto sexo, só relaxaria e tentaria tirar proveito. Dessa forma, eu nunca seria violentada. Se o violentador tivesse meu consentimento.
Mas eu descobri que o abuso aconteceu mesmo quando eu dei o consentimento, porque o que era nutrido pelo meu sim era, na verdade, falta de autoestima; frustração, que me fazia buscar uma punição; vontade de ter histórias para pertencer aos grupos mais descolados; medo de enfrentar a solidão; formas de fugir das minhas obrigações e responsabilidades, que tanto me assustam.
Ela me protegeu também de sentir a dor. Afinal de contas, quem tinha maiores chances de cometer uma traição era eu mesma. Pois eu e ela havíamos crescido em uma sociedade onde “não importa o que você faça, o homem vai sempre trair”; onde homens competem por corpos femininos como troféus. Talvez, se eu for a colecionadora, eu não me torne um objeto de coleção.
Nós duas crescemos vendo os nossos amigos homens abusarem da inocência de mulheres apaixonadas, por diversão. Escolhemos, então, juntar-nos à diversão. Ser a própria diversão.
Ela me protegeu das mentiras. Pois ela me ensinou todas elas, na prática. Ela me ensinou a perceber os sinais. A farejar as incoerências. A sentir, muito antes, a hora de partir (quase sempre na manhã seguinte).
Ela me ajudou com as expectativas. Se eu for a que não vai responder, se eu for a que vai ignorar, se eu for a indiferente... nada disso vai doer. Nunca. Porque eu não vou sentir.
Ela me protegeu tanto que não tem como não chorar ao vê-la partir. Eu quase peço que ela fique. Mas, como ela mesma me ensinou, essa decepção também passa, e ninguém morre de amor (pelo menos não do amor que não se amou).
Chorei, pois vi que, na verdade, ela me protegeu tanto que me protegeu do amor. E eu, que sempre achei sentir, encontrei um vazio tão grande por falta de memórias de verdadeira afetividade.
Chorei, pois, em muito tempo, pela primeira vez, e por vê-la partir... senti.
E, como você mesma me ensinou a deixar partir, deixo você também ir.
Adeus à versão de mim que um dia foi promíscua.
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Texto escrito em fevereiro de 2024 por Milla Dalbem.
Parte da dieta espiritual com Bobinsana.
Obs:
Minha menstruação atrasou muito. E, na jornada com a Sereia, ela me disse que eu só menstruaria quando eu estivesse pronta para me despedir do demônio.
A amiga que a nomeou foi a Dani Soares. Minha eterna gratidão por conseguir falar o nome que eu não conseguia dizer. Minha menstruação veio exatamente em seguida. Você foi importante para minha cura.


