O choro que mudou o rumo da minha vida
Sobre o dia em que percebi que continuar igual seria mais doloroso do que mudar.
Ela chegou do trabalho, entrou no banho e ficou lá por mais tempo do que planejou. Embaixo da água morna, ela chorava. E junto com aquele turbilhão de emoções que construía cada lágrima, ela secretamente se sentia aliviada. Ela não chorava havia anos.
Lágrimas, secreção do nariz e água se misturavam.
Ela começou de pé, com as mãos no rosto, mas logo precisou se ajoelhar. O choro tomou seu corpo, como se uma avalanche estivesse derrubando a neve de um inverno inteiro montanha abaixo.
Ela ficou ali, desolada. Por pelo menos vinte minutos.
Onde estavam todos aqueles sentimentos?
Sua vida estava “normal”, apesar de que havia muito tempo ela não lembrava o que era se sentir viva. Ela não tinha do que reclamar, sabe?
Tudo estava dentro dos conformes: ela tinha um bom emprego, sua casa estava em ordem, seu marido era excelente para ela.
Primeiro, sentiu culpa por chorar tanta insatisfação. Sua mãe ficaria decepcionada com tamanha ingratidão.
Depois, sentiu-se sozinha.
E isso também a decepcionou. Afinal, ela tinha bons amigos e uma rede de apoio incrível.
Mas como ninguém viu que ela estava morrendo?
Não, ela não estava doente. Pelo menos não em seu corpo físico. Era a alma mesmo: que foi perdendo o brilho dia após dia até não sobrar mais nada.
O pôr do sol não trazia mais alegria.
As últimas viagens que fez com a família a deixaram mais sem paciência do que feliz.
Até as relações sexuais com o marido pareciam mais do mesmo.
E aquele choro. Ah, aquele choro veio sem avisar, com pequenos urros, bem contidos embaixo do chuveiro, que saíam de sua garganta.
E mais uma vez ela sentiu vergonha.
Será que o marido já tinha chegado em casa?
Ela quis se deitar no chão do banheiro. Mas não o fez porque lembrou que vinha adiando a limpeza da casa havia semanas. E ali, de joelhos, ela chorou.
Chorou.
E chorou.
Até que o choro acabou.
Ela então mudou a água para fria. O corpo precisava se resfriar. Ela queria voltar ao normal.
Mas que normal?
Tarde demais.
Com os olhos vermelhos, desligou o chuveiro. Quase tremendo de frio. Quase de volta ao próprio corpo. Mas agora estava assustada.Mais ainda, na verdade.
O choro liberou o aperto no peito. Mas a clareza que chegou depois foi o que realmente a preocupou.
“Como?”
Era a pergunta que rondava sua cabeça.
Aquele momento foi um marco. Um portal. Uma passagem.
Ela precisava mudar.
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Eu queria escrever sobre como foi o momento em que entendi que a vida que eu vivia não me cabia mais.
Eu queria escrever sobre a adrenalina e o peso de tomar — e sustentar — a decisão de deixar minha profissão de acupunturista veterinária e meu casamento para trás, para seguir um chamado que eu nem sabia o que era.
Eu queria viver mais do que estava vivendo. Eu queria ver um mundo que não sabia que existia. E nem sabia onde encontrá-lo.
Mas aceitei ouvir o clamor da minha alma.
Meu chamado não aconteceu no banheiro. Foi durante uma corrida de rua na Avenida Sumaré, em São Paulo, em um dia chuvoso. E até hoje tenho medo de correr na chuva e decidir mudar de rumo de novo. Rs.
Não foi exatamente como descrevi.
Mas quando consultei minhas memórias sobre aquele momento, essas foram as palavras que elas escreveram. Apesar de não saber o que seria da minha vida, sou profundamente grata pela decisão de largar tudo para trás.
Não era sobre os outros ao meu redor.
Era sobre eu precisar me encontrar no caminho.
E disso eu não me arrependo.
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Talvez exista alguém por aí precisando de coragem para desbloquear o próprio choro.


