A Estante Terapeuta: o dia em que percebi que estava me escondendo de mim mesma
Um texto sobre identidade, coragem e a difícil arte de integrar quem somos em todos os espaços da vida.
Não foi na terapia.
Não foi em uma cerimônia.
Foi montando uma estante.
E, mesmo assim, minha alma falou mais alto do que em muitos rituais. O que parecia uma tarefa simples se transformou em um espelho.
Não é só na psicanálise e no Daime que eu encontro respostas — ou melhor, perguntas.
Era uma simples estante. E eu estava montando-a pela terceira vez na minha vida; afinal, era a segunda mudança em que ela me acompanhava.
É surpreendente como, com presença, precisamos de pouco para mergulhar em nós mesmos.
Eu havia planejado que essa estante ficaria na sala. E, enquanto a montava, senti como se ela me pedisse para ficar no meu quarto, em um cantinho onde se tornaria o meu background para as minhas infinitas ligações por Zoom.
Após montada, veio o convite para colocar meus livros em suas prateleiras. Por um segundo, surgiu a dúvida da parte racional que habita em mim:
“Será que essa estante não vai me expor demais?”
Enquanto eu a posicionava de frente para o computador, me senti vulnerável e exposta. Meus livros falam demais sobre quem sou.
Alguns livros eu trouxe comigo — sim, dos meus poucos apegos, os livros sempre foram um deles.
Comecei pela prateleira de baixo, com os livros mais pesados — livros que viajaram do Brasil para os Estados Unidos, alguns anos após a minha mudança: medicina veterinária, acupuntura, auriculoterapia, medicina floral. Parte do meu passado — um desejo para o futuro. Uma parte minha que foi importantíssima para eu começar a compreender quem sou.
Depois, planejei uma das prateleiras mais altas — a que ficaria visível aos meus clientes nas ligações: alguns livros sobre mentalidade e meu último certificado na companhia de seguros.
Decidi que, na prateleira mais alta, ficariam meus bowls tibetanos e alguns tuning forks (instrumentos de sound healing que uso nas meditações). Até aí, tudo bem — afinal, uma agente de seguros pode ter um lado mais sensitivo. Digamos que isso pode até ser visto como um “diferencial”.
Minha Bíblia ficou na primeira prateleira, junto com os instrumentos. Afinal, Deus vem sempre em primeiro lugar. E depois vem o som.
Chegou a hora de arrumar os livros sobre o sagrado feminino, meus estudos sobre Maria Madalena, a psique da mulher, junto com meus dois exemplares de Mulheres que Correm com os Lobos — sim, não contente com um exemplar, precisei ter uma versão em português e uma em inglês.
Nesse momento, me peguei querendo escondê-los. Me questionei sobre o lugar deles nessa estante que ficaria exposta atrás de mim nas minhas ligações.
Uma parte do meu trabalho hoje é como agente de seguros de vida, fazendo parte do mundo corporativo. E senti todo o peso que esse universo coloca sobre nossos ombros: passar credibilidade, estabilidade, competência.
E ali, naquela prateleira, estava minha busca mais interna, mais sutil, mais profunda. O meu lugar no mundo como mulher, como menina, como esposa, como mãe.
Havia também uma exposição da minha espiritualidade — a que acredita em uma face feminina da criação; a que gosta de rituais; a que acende um palo santo para afastar energias negativas e medita para não surtar no meio do caos que é a vida.
Minha presença naquele momento me fez perceber quantas vezes eu achei necessário esconder uma versão minha para ser aceita em determinado núcleo. Me fez perceber o quanto tenho dificuldade em reconhecer quem sou — porque eu mesma sinto dificuldade em integrar todas essas versões de mim.
Como se, para ser bem-sucedida no mundo corporativo, eu tivesse que abafar a facilitadora de rodas de cura. E como se, para servir à espiritualidade, eu tivesse que negar minha busca material.
Em uma simples montagem de uma simples estante, minha alma berrou e me mostrou por que é tão difícil dividir minha energia entre minhas versões: talvez não seja a falta de organização do meu tempo, e sim a falta de aceitação das minhas próprias versões.
E quantas vezes, em quantos grupos sociais e momentos do nosso dia a dia, não nos escondemos de nós mesmos por falta de aceitação?
Por conta disso, vivemos como pedaços de um vidro quebrado. Falta o encaixe.
Talvez eu não seja um vaso de cristal. Entendo, neste momento, que sou mesmo um grande mosaico — ainda incompleto. Minha estante ainda tinha espaços vazios, que entendi serem ferramentas e versões que ainda estão por vir.
Fui tomar meu banho e me perguntei:
Como será a vida se eu não tentar mais esconder nenhuma versão de mim?
E, mesmo sem ter a resposta ainda, me abro para descobrir.
E você…
Em quais espaços da sua vida você ainda sente que precisa esconder partes de si para ser aceito?
Qual versão sua você tem silenciado?
Se esse texto falou com você, compartilhe com alguém que também está tentando se encaixar… quando, talvez, o caminho seja se integrar.
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Estou aprendendo a não me dividir mais para caber.
Estou aprendendo a me integrar para existir.
Com amor,
Milla Dalbem

