A desconexão de si pode ser silenciosa
“Você não precisa estar em crise para estar desconectada de si mesma. Às vezes a vida continua funcionando por fora enquanto algo essencial se perde por dentro.”
Existe uma forma de se perder de si mesma que ninguém percebe.
Você continua trabalhando.
Continua cuidando dos filhos.
Continua pagando as contas.
Continua sorrindo nas fotos.
Mas, em algum lugar do caminho, deixou de se escutar.
Nem sempre a desconexão de si é aparente.
Quando falamos sobre desconexão, imaginamos alguém apático. Sem brilho nos olhos. Talvez alguém em um quadro depressivo grave, isolado do mundo.
Certo?
Nem sempre.
E quando imaginamos alguém conectado consigo mesmo, quase sempre pensamos em uma pessoa vivendo na praia, cercada pela natureza, sem grandes preocupações com o amanhã.
Certo?
Também nem sempre.
Por muitos anos eu fui desconectada de mim mesma sem saber.
E talvez você também esteja.
Porque, sendo honesta, conheci poucas pessoas que realmente sabiam quem eram por trás dos papéis que desempenhavam.
A desconexão pode aparecer de formas muito mais discretas.
Na necessidade constante de buscar respostas em oráculos.
Na necessidade de pertencer a grupos onde alguém sempre aponta a direção.
Na dificuldade de ficar sozinha.
Na compulsão por estar sempre ocupada.
Na necessidade de sair de um relacionamento direto para outro.
Na baixa autoestima.
Na insegurança.
Na necessidade de validação.
Na reatividade.
No vazio existencial que muitas vezes você nunca contou nem para seu terapeuta.
A lista continua.
E muitas dessas pessoas são funcionais.
Estão construindo carreiras.
Criando filhos.
Vivendo casamentos.
Pagando contas.
Sendo admiradas por quem está de fora.
Mas existe algo em comum entre elas:
Secretamente, buscam estabilidade porque têm medo da incerteza.
“Conectar-se consigo mesma é muito perigoso”, diz o subconsciente.
“Mas viver sem conexão é como morrer em vida”, responde a alma.
Porque existe um risco.
O risco de acordar um dia e perceber que a vida que você construiu não combina mais com quem você se tornou.
O risco de mudar de direção.
De terminar um relacionamento.
De trocar de profissão.
De mudar de cidade. De mudar de país.
De abandonar versões antigas de si mesma.
E isso assusta.
Talvez porque acessar a si mesma seja como atravessar um lago de águas escuras. Você não sabe se dá pé. Não sabe o que existe sob a superfície. Não sabe se encontrará pedras, musgo, correnteza ou profundidade.
Mas existe um detalhe:
Há um animal feroz atrás de você.
Ficar parada também não é uma opção. Em algum momento, será preciso atravessar.
E por mais estranho que pareça, desse lado da travessia existe algo que eu não encontrei em nenhum outro lugar. Presença / Paz
Porque acessar a si mesma talvez seja uma das formas mais seguras de acessar Deus.
E aqui não estou falando de religião.
Do crente ao ateu, conheci pessoas que viveram estados profundos de conexão consigo mesmas. E todas elas pareciam descrever algo parecido.
Uma espécie de inteligência silenciosa. Uma presença. Uma sensação de estar sendo guiada. Como se existisse uma trama invisível sustentando seus passos.
Isso significa que uma vida conectada não terá dor?
Quem me dera.
Às vezes é quase o contrário. As emoções ficam mais intensas. As decisões se tornam maiores. Os ciclos de transformação ficam mais frequentes.
Mas existe algo que passa a acompanhar tudo isso:
Uma sensação profunda de amparo. Como dormir em uma rede invisível.
Inquebrável.
Aconchegante.
Mesmo quando você está no meio do olho do furacão.
E enquanto escrevo estas palavras, percebo que talvez tenha sido assim que conheci a fé.
Não através das respostas. Mas através da coragem de continuar atravessando.
Talvez seja por isso que o caminho para Deus seja tão íntimo.
Porque, no fim das contas, ele sempre começa dentro de nós.
Com amor,
Milla Dalbem


