A culpa vem na mala
Sobre o preço invisível de mudar de vida e por que ninguém nos ensinou a desapontar.
A culpa vem na mala
Ninguém me contou sobre o tanto que eu me sentiria culpada por tentar mudar a minha vida.
Ninguém me disse que a minha família ficaria desapontada quando eu decidi não seguir na profissão em que me formei. Muito menos me falaram sobre a culpa de deixar uma família para trás quando pedi o divórcio.
Também não esperava me sentir tão desconfortável ao ver as pessoas que eu tanto amava ficarem do outro lado do portão de embarque.
Às vezes, a culpa é muito grande. Outras vezes, ela aparece nos pequenos desapontamentos que fomos acumulando ao longo dos anos: não ir ao aniversário, não atender o telefone porque eu estava fazendo algo importante do meu dia.
Se você decidir mudar a sua vida, a culpa vai junto, dentro da mala. Enquanto você empacota e desempacota, ela está lá — escondida atrás de cada decisão que o seu novo eu toma, esperando para te pegar de surpresa (ou não tão de surpresa assim).
Algumas vezes, essa culpa paralisa. Outras, ela te coloca em situações que você gostaria muito de ter evitado, mas não soube como.
Eu gostaria de poder mudar o ritmo deste texto agora e te ensinar algo mágico sobre como lidar com a culpa. Algum truque especial que impedisse a visita dela, ou que ao menos protegesse as nossas relações favoritas. Mas a verdade é que, até hoje, eu não encontrei outra solução a não ser sentar, sentir, assumir a presença dela e seguir em frente — confiando que as relações verdadeiras vão se reajustar, e me preparando para o luto de ver algumas, não tão fortes assim, se enfraquecerem ainda mais.
Talvez a culpa pese tanto porque ninguém nos ensinou a desapontar.
A gente ainda confunde decepcionar com machucar. Mas são coisas diferentes.
Decepcionar é frustrar a expectativa que o outro construiu sobre a gente.
Ferir é desrespeitar os limites éticos e morais de alguém.
E enquanto a gente não separa uma coisa da outra, segue carregando culpa por crimes que não cometeu.
Eu também já vivi do outro lado.
Certa vez, uma amiga querida começou a ter posturas que me afetavam. Ela mudou alguns posicionamentos na própria vida, e esse novo jeito de agir me fazia sentir “atacada”.
Cheguei a achar que a nossa amizade tinha chegado ao fim. Quando estávamos juntas, a energia era estranha. A comunicação não fluía, e parecia que a gente precisava pisar em ovos.
Mas eu sabia do valor dela na minha vida.
Com o passar do tempo, fui abrindo espaço nas minhas expectativas para poder observar essa nova versão dela. Depois de algumas conversas honestas, ela continua na minha vida até hoje.
Não porque ela cumpriu as minhas expectativas — mas porque eu dei tempo para que a versão que ela estava construindo de si se assentasse. E me adaptei a essa nova versão dela. Que hoje eu amo ainda mais.
Foi ali que eu entendi:
Quando a gente se agarra demais às expectativas, perde a beleza de acompanhar as diferentes versões de quem as pessoas se tornam. E de quem nós mesmas nos tornamos.
Agora estou, mais uma vez, revivendo o meu próprio método. Me encontro no momento de desapontar as pessoas que se beneficiavam da minha versão anterior — e curiosa para ver quais amizades vão sobreviver ao meu terremoto interno.
Sobre a culpa: enquanto escrevo este texto, me torno mais consciente da presença dela nas fases de mudança consciente.
E aceito a sua presença. Inclusive a percebo como um farol, me mostrando que estou, de fato, em caminho de transformação. Que eu já comecei a agir em direção ao meu reencontro com o propósito.
A culpa continua na mala. Mas agora eu sei o que ela é: não um aviso de que estou errando — um sinal de que estou indo.
Com amor
Milla Dalbem
Meu bem, gratidão por ler meu texto até o final. Eu sempre escrevo reflexões sobre processos que eu mesma atravessei e meus aprendizados sobre eles.
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