A Arte de Se Distrair de Si Mesma
Durante anos acreditei que uma vida cheia era sinônimo de uma vida bem vivida. Amigos, compromissos, estudos e planos ocupavam cada espaço da minha agenda.
Ela tinha uma vida cheia.
Muitos amigos de diferentes grupos sociais. Um trabalho que ocupava a maior parte da semana. Estudava um novo idioma. Fazia uma pós-graduação. Cumpría horas de estágio voluntário.
Era daquelas pessoas que precisavam abrir a agenda para marcar um café.
Ela era feliz. Ou pelo menos acreditava que era.
Gostava de dizer que não assistia televisão porque não tinha tempo. Gostava da sensação de estar sempre indo para algum lugar. De ter mensagens não respondidas. De precisar encaixar compromissos entre outros compromissos.
Como era jovem — ou pelo menos se sentia jovem — não podia desperdiçar a vida.
Quase toda semana recebia alguma amiga em casa. Sempre havia alguém precisando de um abraço, de um conselho ou de uma garrafa de vinho.
Ela gostava de ser necessária. Gostava de ser lembrada. Gostava de ser chamada.
Sua agenda estava lotada quase todos os dias. E quando aparecia um espaço vazio, ele raramente permanecia vazio por muito tempo.
Um aniversário.
Um happy hour.
Um encontro.
Uma viagem.
Qualquer coisa.
Era como se o calendário tivesse horror ao silêncio.
Ela estava sempre atrasada.
Quase sempre cansada.
Algumas manhãs acordava exausta mesmo depois de ter dormido mais de doze horas.
Mas isso era normal, não era?
Afinal, pessoas interessantes tinham vidas interessantes.
E vidas interessantes eram cheias.
Pelo menos era isso que ela acreditava.
Tudo era intenso.
Ela voltava dos rolês feliz demais ou exausta demais.
As conversas duravam horas.
Os dramas pareciam urgentes.
As emoções eram sempre grandes.
Sua família exigia demais.
Seu trabalho exigia demais.
Seus amigos exigiam demais.
A vida exigia demais.
Ir à academia?
Preparar a comida da semana?
Sentar para descansar?
Quem tinha tempo para isso?
———
Essa era a minha vida.
Talvez seja a sua.
E, se eu não prestar atenção, ela ainda pode voltar a ser.
Durante muito tempo eu achei que uma vida bem vivida era uma vida cheia. Cheia de experiências. Cheia de amigos. Cheia de planos. Cheia de histórias para contar. Cheia de movimento.
Hoje eu consigo enxergar algo que não enxergava naquela época.
Os únicos momentos em que a ansiedade aparecia eram os momentos vazios.
Ela aparecia quando eu voltava para casa.
Quando o telefone parava de tocar.
Quando não havia ninguém precisando de mim.
Quando o domingo terminava.
Quando o silêncio finalmente conseguia entrar pela porta.
Enquanto eu tomava mais um copo de cerveja, não precisava escutar certas perguntas.
Enquanto resolvia o problema das minhas amigas, não precisava olhar para os meus.
Enquanto corria de um compromisso para outro, não precisava perceber que havia algo em mim pedindo atenção.
A vida cheia não era apenas uma vida cheia.
Era também uma excelente distração.
Perceber isso mudou tudo.
Mas existe uma parte dessa história sobre a qual quase ninguém fala.
O vazio.
O vazio assusta.
Assusta abrir a agenda e perceber que não há nada marcado.
Assusta quando o telefone passa o dia inteiro sem tocar.
Assusta não ter um plano incrível para o próximo feriado.
Assusta descobrir que você não faz ideia de quem é sem toda aquela movimentação.
Porque é no vazio que as coisas aparecem.
As tristezas.
Os medos.
As frustrações.
As perguntas que ficaram anos esperando uma oportunidade para serem ouvidas.
É como desligar a televisão da casa e perceber que a geladeira faz barulho o tempo inteiro. O barulho sempre esteve lá. Você só não conseguia escutá-lo.
Comigo foi assim.
No começo, o silêncio parecia um castigo. Depois virou companhia. E, mais tarde, virou lar.
Aos poucos eu comecei a gostar da minha própria presença.
Comecei a perceber o quanto estava cansada de carregar problemas que não eram meus. O quanto era bom não precisar estar disponível o tempo inteiro.
O quanto era agradável assistir a uma série ruim antes de dormir sem sentir que eu deveria estar produzindo alguma coisa.
O quanto era libertador não fugir da minha própria dor.
E foi curioso perceber que eu também comecei a olhar para algumas mulheres de forma diferente.
Aquelas mulheres que tinham poucos amigos. Aquelas que passavam finais de semana sozinhas. Aquelas que eu julgava silenciosamente como sem graça.
De repente eu as admirava.
Porque elas possuíam algo que eu ainda estava aprendendo. Elas sabiam estar consigo mesmas. Elas não precisavam de tanto barulho para se sentir vivas.
Hoje eu entendo que remover excessos não é empobrecer a vida. É permitir que ela respire.
Às vezes os excessos são compromissos. Às vezes são expectativas. Às vezes são pessoas. Às vezes são versões de nós mesmas que já deveriam ter ido embora.
E talvez o maior presente desse processo seja perceber que a solitude não é ausência.
É presença.
Presença de si.
Porque é quando o mundo finalmente abaixa o volume que conseguimos ouvir a nossa alma.
E eu passei anos tentando preencher a minha vida.
Só depois percebi que estava tentando não escutar o eco.
Com amor
Milla Dalbem


